Ramakrishna

Nascido numa aldeia de Bengala, Ramakrishna (1836-1886)
teve uma experiência mística que aparentemente foi bem rara
e lhe proporcionou, sem o desejar, uma posição espiritual que
seus contemporâneos mais cultos podiam invejar. Sua devoção
se caracteriza por um hinduismo não-sectário irrestrito - o
culto da Mãe, no entanto, parece predominar.

O Mundo Visto por um Místico

Pratiquei austeridades por muito tempo e cuidei muito pouco do
corpo. Meu anseio pela Mãe Divina era tão grande que eu não comia
nem dormia. Deitava-me no chão puro, pondo a cabeça num monti-
nho de terra, e gritava: "Mãe, mãe, por que não vens ter comigo?"
Não sabia como passavam dias e noites e costumava estar em êxtase
todo o tempo. Via meus discípulos como minha própria gente, como
mudanças e parentes, muito antes de virem ter comigo. Costumava gri-
tar diante de minha Mãe, dizendo: "Ó Mãe! Estou morrendo pelos
que amo; traze-mos tão depressa quanto possível".
Naquela época, tudo quanto desejava se realizava. Certa feita,
desejei construir uma pequena cabana no Panchavati (a) para meditar e
levantar uma cerca em torno à mesma. Imediatamente em seguida vi
um grande feixe de varas de bambu, corda, cordões e até uma faca,
tudo trazido pela maré em frente do Panchavati. Um servidor do
Templo, vendo essas coisas, correu para mim com grande prazer e
me falou delas. Lá estava exatamente a quantidade de material ne-
cessário para a cabana e a cerca. Quando as mesmas foram cons-
truídas, nada restou. Todos ficaram espantados em ver isso.
Quando cheguei ao estado de êxtase contínuo, abandonei todas
as formas externas de adoração, que não consegui mais executar. Foi
quando orei à Mãe Divina: "Mãe, quem tomará conta de mim agora?
Não tenho poder para tomar conta de mim próprio. Gosto de ouvir
Teu nome e alimentar os Teus amados e ajudar os pobres. Quem tor-
nará possível a mim fazer essas coisas? Manda-me alguém que o possa
fazer por mim". Em resposta a essa oração surgiu Mathura Babu,(b)
que me serviu por tanto tempo e com tamanha devoção e fé! De ou-
tra feita, eu disse à Mãe: "Não terei filhos meus, mas desejo ter por
filho um Bhakta (c) puro, que fique comigo todo o tempo. Manda-me
alguém!

Referindo-se à época de iluminação jubilante que se seguiu ime-
diatamente ao seu esclarecimento, Ele exclamou:
Em que estado eu me achava! A menor causa desejava em mim o
pensamento do Ideal Divino. Um dia, fui ao Jardim Zoológico em
Calcutá, onde queria ver especialmente o leão, mas ao contemplá-lo
perdi toda a consciência sensorial e entrei em samadhi. Meus com-
panheiros queriam mostrar-me outros animais, mas repliquei: "Já vi
tudo, quando vi o rei dos animais. Levem-me para casa". A força
do leão despertara em mim a consciência da onipotência de Deus e
me erguera acima do mundo dos fenômenos.
Outro dia, fui ao campo de manobras ver a ascensão de um ba-
lão. De repente, meus olhos viram um menino inglês encostado a uma
árvore. A própria posição de seu corpo me trouxe a visão da forma
de Krishna e entrei em samadhi.(d)
De outra feita, vi uma mulher usando uma roupa azul e sob uma
árvore. Era uma prostituta e quando a olhei surgiu imediatamente
para mim o ideal de Sita(e). Esqueci-me da existência da meretriz, mas
vi diante de mim Sita pura e imaculada, aproximei-me de Rama, a
Encarnação da Divindade, e por bastante tempo fiquei sem movimen-
tos. Adorava todas as mulheres como representantes da Mãe Divina
e via a Mãe do universo em toda forma de mulher.
Mathura Babu, genro de Rashmoni, convidou-me a ficar em sua
casa por alguns dias. Naquela ocasião senti com tanta força que era
a empregada de minha Mãe Divina que pensei em mim mesmo como
sendo uma mulher. As senhoras da casa tiveram o mesmo sentimento
e não me olharam como homem. Assim como as mulheres têm liber-
dade diante de uma mocinha, tiveram diante de mim. Minha mente
estava acima da consciência de sexo.
Que estado Divino foi esse! Não podia comer aqui no Templo.
Andava de um lugar para outro e entrava na casa de estranhos depois
da hora de sua refeição. Sentava-se sossegadamente, sem dizer uma
palavra. Quando me interrogava, dizia: "Desejo comer aqui". Ime-
diatamente me davam o melhor que tinham para comer.(55)

a) Cinco árvores sagradas plantadas juntas para formar um
bosque para contemplação.
b) Um discípulo rico.
c) Um devoto.
d) Contemplação mística.
e) Consorte de Rama, que exemplifica o ideal hIndu de
feminilidade.