Hinos do Atharva Veda

IV-9
Prece recitada durante o preparo de um ungüento preservativo de males e doenças
Vem como protetor de vida! És o olho da montanha, foste concedido por todos os deuses como escudo defensor da vida. e.s salvaguarda para os homens, para as vacas, cavalos, corcéis.
És a salvaguarda que estrangula os feiticeiros. Ungüento, conheces também a origem da imortalidade. És alimento vital, remédio para a icterícia.
Ungüento, quando penetras no corpo, de um membro a outro membro, de uma articulação a outra articulação, expulsas a tísica, como se fosses um rei sentado entre adversários.
A maldição não atinge a pessoa que faz uso de ti, ungüento, nem a magia, nem o sofrimento, nem a doença.
Mau conselho, mau sonho, ação má, mau coração, mau olhado, protege-nos de tudo isso, ungüento.
Sabedor disso, direi a verdade, não a mentira, ungüento! Quero ganhar um cavalo, uma vaca, e a tua própria vida, homem!
O ungüento possui três escravas: a febre, a inchação e a serpente. e. teu pai, ungüento, a mais alta montanha, a montanha dos três cumes, o Trikakud.
O ungüento nasceu na montanha das neves.(16) Que ele estrangule todos os feiticeiros e feiticeiras. Sejas oriundo do Trikakud ou te chames ungüento do rio Iamuna, estes dois nomes são propícios e por eles protege-nos, ungüento!

[(16) A frase "o ungüento nasceu na montanha das neves" significa que o ungüento foi preparado com a maceração de uma erva oriunda das faldas da montanha chamada Trikakud, designando o nome dos três cumes da montanha. O rio Iamuna é um dos maiores afluentes do Ganges].

V - 21
Ao tambor
Leão que vai dominar e vencer o inimigo, brada contra eles o tambor de guerra, feito da árvore da floresta e do couro das vacas vermelhas.
O tambor de madeira, amarrado em cordas, rugiu como leão, mugiu como touro atrás de novilha. És touro e os teus inimigos são animais castrados. Quando abates os adversários, o teu ardor é o de Indra.
Com tua força apareces como touro no meio do rebanho. Urra aos inimigos, vencedor na luta e possui- dor dos despojos do combate. Fere e queima o coração dos adversários. Aterrorizados, fujam os inimigos das suas cidades.
Tu, vencedor de batalhas, possuidor de despojos, onde estiveres, sê atento, mugindo para o céu. Tambor serviçal, sê tu um eco da palavra divina. Traz-nos a riqueza do inimigo.
Ao ouvir o som longínquo do tambor, a mulher desperta e corre suplicante para o seu filho, a quem agarra pela mão, ela, nossa inimiga, temendo as armas da morte na confusão do combate.
Tua voz será a primeira a ouvir-se. Fala, resplandecente no dorso da Terra. Pasmo o inimigo, sejam teus sons palavras brilhantes e viris.
Ouça-se um estrondo entre as duas cúpulas do mundo, rápidos propaguem-se os sons. Urra, troveja, ameaçador. Repete o som da vitória dos nossos amigos, sê bom companheiro.
Feito por nossas orações, ouça toda gente a tua voz. Faz que se levantem alegres as armas dos nossos combatentes. Convoca os nossos guerreiros. lndra é teu aliado.
Arauto altissonante, arma ousada, orador, ressoante de cidade em cidade, amante da glória, sabedor dos meios de alcançá-la, distribui a muitos a fama, nesta guerra dos dois reis.
Facho de glória, conquistador de riquezas, pode- roso vencedor de exércitos, esta benção te exalta. Como a pedra a esmagar a erva do soma, dança, tambor, sobre o despojo que conquistares.

V - 22
Para curar a febre
Agni, expulsa a febre daqui. Expulsem-na Soma, a Pedra do pilão, Varuna de pensamentos puros, o Altar, o Tapete de folhagens, as Achas de lenha, acesas. Anulem-se as inimizades.
Queimas como o fogo, amareleces todos aqueles que consomes. Pois bem, Febre, perde o teu vigor, foge para longe, para longe.
Erva, com a tua virtude, abate, expulsa a Febre, enrugada, avermelhada, da cor do ocre.
Eu expulso a febre para longe, depois das minhas homenagens. Volte para os Mahavrissas a causa das diarréias.
Ela mora com os Mahavrissas, com os Mujavats. Desde o teu nascimento, Febre, resides entre os Balicas.
Febre amarelenta, manchada, dolorida, vai para longe, vai procurar a prostituta, bárbara, errante, e atira o teu raio sobre ela.
Febre, vai para os Mujavats ou para mais longe ainda. Vai procurar a escrava lúbrica. Agita-a bem. Vai para os teus pais, os Mahavrissas, os Mujavats. Devora-os. São essas a terra que indicamos à Febre. Estas aqui não lhe pertencem.

VI - 8/9
Para obter o amor de uma mulher
Deseja meu corpo, meus pés, meus olhos! Deseja minhas coxas! Teus olhos, teus cabelos, amorosa, sofram de paixão por mim!
Faço que te agarres ao meu braço, apegando-te ao meu coração. Estejas submissa à minha vontade e sob o meu domínio.
Vacas, mães da manteiga sagrada, cuidadosas dos vossos bezerros, fazei que esta mulher me ame!
Como o cipó enrola-se na árvore, assim não te afastes de mim, sê minha amante!
Como a águia ao levantar vôo toca no chão com as asas, assim eu toco em teu coração. Sê minha amante e não te afastes de mim!
Como o sol envolve a Terra na mesma luz, assim eu envolvo o teu coração. Sê minha amante e não te afastes de mim!

VI - 75
Benção das armas de um príncipe em sua ida para a guerra
Quando está revestido da couraça e avança no meio da batalha, ele parece uma nuvem de tempestade.
O arco! Manejando-o, iremos apossar-nos das vacas, dos despojos do combate, e ganhar a batalha. O arco desagrada ao inimigo. Vamos conquistar com o arco todas as regiões do espaço.
Ela está junto à orelha, como se fosse falar, beijando o amante querido, a corda! Distendida no arco, vibra como se fosse uma jovem mulher, salvadora na confusão da luta.
E as duas que a sustentam, como a mãe ao seu filho, que se aproximam dela, como vai a amante ao encontro do amado, são as pontas do arco. Repelem os inimigos, expulsam os adversários.
É mãe de muitas filhas e filhos, fazendo-os tinirem quando ela desce à arena, a aljava. Amarrada às costas, logo agitada, ganha as batalhas.
Em pé no carro está hábil cocheiro, estimulando os cavalos até onde ele quiser. Admirai a beleza das rédeas. As bridas vêm de trás e dirigem o animal segundo o pensamento do cocheiro.
Quando avançam com os carros, os cavalos fazem ruído, os cavalos de ferraduras fortes. Pisando o inimigo, eles destroem o adversário.
A oblação é a carreta onde se colocam as armas e a couraça. Quem nos dera estar sempre de coração alegre, sentados no carro.
Sentados em círculo para sorverem a doce bebida, estão os Manes, doadores de vida, apoio no perigo, valorosos, profundos, brilho das armas, impulso das flechas, incansáveis, corajosos, dominadores dos clãs.
Ó brâmanes, Pais que honram o soma, sede benevolentes conosco, vós e também o Céu e a Terra, que ninguém domina. Puschan, defenda-nos do mau passo. Salvai-nos, vós que sois exaltado pela ordem Universal. Nenhuma palavra pérfida nos domina.
A flecha tem a pena da águia, seu dente é o da fera e, presa na corda do arco, ela voa quando se solta. Onde os soldados se juntam ou se separam, venham as flechas socorrer-nos.
Ó flecha direita, poupa-nos! Seja de pedra o nosso corpo! Interceda por nós, Soma. Conceda-nos um abrigo, Aditi!
Ó chicote, açoita o lombo dos animais! Ó chicote, estimula os cavalos ao combate!
A luva enrola-se no braço como se fosse uma ser- pente. Proteja o braço do valente.
Embebida em arsênico, cabeça de antílope com boca de aço, semente de Parjania, a Flecha! A nossa homenagem dirige-se a essa deusa.
Voa longe, Dardo afiado pela oração! Vai, penetra nas fileiras dos inimigos, sem poupar nenhum deles!
Quando as flechas voam juntas, como rapazes em cavalos impetuosos, Briaspati e Aditi ofereçam-nos um refúgio em toda parte, sempre um refúgio!
Protejo suas partes vitais com a couraça. Digne-se Soma Rei vestir-te de imortalidade, Varuna, abrir-te um campo livre, e os deuses saudarem sua vitória!
Quem pretende matar-nos, longe ou próximo de nós, destruam-nos os deuses! A oração é a minha couraça interior!

VII - 55
Prece para que adormeçam os moradores de uma casa, a fim de alguém entrar nela às escondidas.
Tu que afugentas as moléstias, senhor das casas, e que assumes todas as formas, sê meu amigo benevolente.
Cão branco, cão malhado, ao mostrares os dentes é como se brilhassem lanças nos maxilares de quem dorme. Adormece.
Late ao salteador, ao ladrão, animal de guarda. Por que latires aos chantres dos deus lndra? Por que nos nos queres mal? Dorme!
Vai atacar o javali para que ele te despedace. Por que latires aos chantres do deus lndra? Por que nos queres mal? Dorme!
Durmam o pai, a mãe, o cão, o chefe de família. Durmam todos os parentes, durmam todos os que estiverem próximos!
Assim como está fechada esta casa, assim nós fechamos os olhos deste homem, sentado, em pé, andando, ou que nos vê.
Ergueu-se do seio do oceano o touro de mil chifres e nós adormecemos as criaturas humanas com o seu auxílio.
As mulheres em repouso no sofá, na liteira, na cama, as mulheres muito perfumadas, nós as adormecemos todas!

VII - 103
Hino às rãs, para que venham as chuvas
Elas estiveram escondidas o ano inteiro, como os brâmanes na observância do voto. Agora, ao convite de Parjania, elas alteiam a voz.
Quando foi molhada pelas águas do céu aquela que estava ressequida como tripa seca de boi, propagou-se a cantoria das rãs, como se fosse o mugido de vacas e bezerros.
No começo da época das chuvas, todas, satisfeita a sede, gritam: Akhkhala! - e correm umas para as outras assim como os filhos correm para os pais.
Embriagadas sob o aguaceiro, congratulam-se umas com as outras. Pulando sob a chuva, a rã mosqueada canta com a loura. Se uma repete as palavras da outra, como o aluno repete as do professor, harmoniza-se o todo como o do vosso belo canto coral, às margens de um lago.
Uma está mugindo como vaca, a outra balindo como cabra, esta é mosqueada, aquela é loura. Têm o mesmo nome, mas são diferentes na forma e modulam a voz de diferentes maneiras.
Brâmanes, que estais falando em tomo do lamaçal, como em festa noturna do Soma, ó rãs, o que festejais agora é o primeiro dia do ano das chuvas.
Brâmanes do soma, elas altearam a voz, no encantamento de cada ano. Oficiantes suados no aquecimento da panela, as rãs estão aparecendo, nenhuma fica no seu esconderijo.
Como se fossem homens, elas executam a divina cerimônia para o ano dividido em doze partes. Elas respeitam as estações. Quando vem a época das chuvas, não se aquecem os vasos do sacrifício.
Aquela que mugiu como vaca, a que baliu como cabra, a mosqueada, a loura, trouxeram-nos donativos. Na hora de esmagarmos as raízes, dêem-nos as rãs centenas de vacas, prolonguem a nossa vida!

VII-9
Para achar-se um objeto perdido
Longe dos caminhos, longe do céu, longe da terra, nasceu Puschan, Entre essas duas abençoadas regiões, ele vai e vem, ele que sabe de tudo.
Puschan conhece todas as regiões celestes e conduz-nos pelo caminho mais certo; benfeitor, ardente, patrono dos heróis, onisciente, Proteja-nos, ó deus!
Ó Puschan, sob o teu patrocínio, estejamos isentos de danos. Aqui estamos, nós que te louvamos.
Que Puschan nos estenda a mão do lado do Oriente. Que ele nos traga aquilo que perdemos, Possamos achar o objeto perdido, sob o seu patrocínio!

VIII-8
Prece de cunho mágico para derrota de inimigos
lndra confunda-os, ó poderoso herói demolidor de cidades, a fim de desbaratarmos os exércitos dos inimigos.
Desânimo, adversidade cruel, infortúnio, contra o qual não há oração, fatiga, desgosto, vertigem, eu lhes envio todos estes males.
A corda podre atirada sobre esta tropa, apodreça este exército.
Eu entrego-os à morte. Estão presos nas amarras da morte. Levo-os acorrentados aos funestos mensageiros da morte.
Arvores da floresta, ervas e plantas vindas da floresta, bípedes, quadrúpedes, eu os atiro sobre estes soldados, para a derrota deste exército.
Gandarvas, Apsaras, serpentes, deidades, manes e bons gênios, visíveis e invisíveis, eu os envio contra este exército.
Morram os soldados, à queimadura da morte, à fome, do abatimento, ao assassinato, ao pavor! Indra venha com suas armadilhas destruir este exército e também tu, Sarva! .
Quebrem-se as suas armas e que eles não possam acertar nem uma flecha. Estejam aterrorizados, sejam feridos por nossas flechas de ponta mortífera.
O céu, a terra, o espaço, urrem juntos com as suas divindades. Que eles não conheçam ninguém que os auxilie. Morram todos, ferindo-se uns aos outros.

X - 2
Meditação sobre a origem do homem
Quem ajustou os calcanhares do homem? Quem produziu a carne? Por quem foram feitos os tornozelos, os dedos, que modelam, os orifícios do corpo, os dois pilares que saem do centro, e o assento?
Por que os tornozelos abaixo das rótulas? Como se separam as pernas? E as articulações dos joelhos, quem o sabe?
Sendo um cubo de lado bem feito, o tronco erecto e flexível combina com os joelhos. Coxas e ancas, que sujeitam a espinha dorsal, quem as fez?
Quantos e quais os deuses que arranjaram o peito e a nuca do homem? Quantos ajustaram os seios e os cotovelos? Quantos arrumaram as espáduas e as costelas?
Qual o deus que, enquanto estava fazendo os braços, dizia: "é para o homem trabalhar com isto"? Qual o deus que ajustou as espáduas sobre a espinha dorsal?
Quem furou os sete orifícios na cabeça? Quem ajustou as orelhas, as narinas, os olhos, a boca? Por isso, homens e animais, de mil maneiras, todos andam, resolutamente.
Colocou a língua dentro da boca e nela depôs a poderosa palavra. Desde então, envolto nas águas, o homem gira pelos mundos. Quem o compreende?
Depois de arrumar o cérebro humano, a testa, o toutiço, e todo o crânio, depois de combinar as partes dos maxilares, ele, o primeiro, subiu ao céu. Quem é esse deus?
Todas as coisas, agradáveis, desagradáveis, o sono, o abatimento, as delícias e os gozos, de onde as extrai o homem poderoso?
De onde lhe vêm a desgraça, a ruína, a perdição, a desvalia? Êxito, bom sucesso, ganho, favor, prestígio, de onde lhe vêm?
Quem nele derramou as águas, que se escoam em vários rumos e não cessam de girar, nascidas para correrem nos rios, as águas, vivas, amarelas, vermelhas, cobreadas, embriagantes, que estão em cima, em baixo, dentro do homem?
Quem lhe deu forma, estatura, nome? Quem o fez andar? Quem lhe deu um caráter distinto? Quem lhe doou a gesticulação?
Quem fez a expiração, a inspiração, a transpiração? Qual o deus a quem o homem deve a conspiração?
Quem inspirou o dever do sacrifício? Qual o deus único? Que é o real? Que é o irreal? De onde vem a morte, de onde vem a não-morte?
Quem o vestiu e marcou a duração da existência? Quem lhe deu vigor? Quem o fez veloz?
Quem estendeu as águas? Quem fez o dia resplandecente, acendeu a aurora e mostrou o crepúsculo?
Quem criou no homem o esperma e disse: "é para ele ter uma descendência?" Quem lhe possibilitou o conhecimento? Quem lhe trouxe a música, as danças?
Por quem foi a terra coberta, o firmamento ultrapassado, as montanhas transpostas? Por quem foram feitas as obras e ele próprio, o homem?
Por quem reverencia ele a Parjania, a Soma, àquele que vê longe? Por quem são feitos o sacrifício e a fé? Por quem desceu até ao homem a inteligência que nele reside? (17)

[17- Este hino é um dos textos mais significativos do pensamento indiano, incluído numa coleção de hinos que revela disparidade na motivação do material coligido. A coleção do Atarva foi tardiamente admitida no “canon” védico. Os brâmanes tradicionalistas recusavam a inclusão do Atarva no corpo doutrinário porque a coleção, sendo de origem popular, com raízes nas superstições e crenças dos povos aborígenes da Índia, era uma seqüência de textos de teor mágico, embora nos últimos tempos ela estivesse enriquecida com textos de cunho filosófico, tal como, o que está acima transcrito. Este hino do Atarva dir-se-ia elaborado por um existencialista angustiado. Revela além disso uma concepção naturalista do ser humano. Na Índia, o homem não está separado do mundo, embora a sua essência transcenda o mundo. E no que diz respeito à verdade, os hindus proclamam um agnosticismo, que é uma espécie de compromisso entre o idealismo do Vedanta e o pragmatismo do Sânquia, posição adotada pelo vedantino Ramanuja. O autor do hino acredita em divindades criadoras, aceitando assim os pressupostos da ideologia védica, apesar do seu manifesto agnosticismo].

X - 34
Para livrar alguém do vício do jogo
Estonteiam-me as nozes trêmulas da grande árvore vibhidaka,(18) as quais, trazidas pelos altos ventos, rolam com força na mesa.
Esposa fiel, não discutia nem se aborrecia comigo, era atenciosa para com os meus amigos e também comigo. Eu abandonei-a pelo dado fatal.
Odeia-o a sogra, rejeita-o a mulher. Implorando, não encontra ninguém que tenha pena dele. O jogador é inútil como o cavalo velho oferecido à venda.
Outros acariciam a mulher do jogador, cujos dados desperdiçam os seus haveres. Dizem-lhe o pai, a mãe, os irmãos: "Não o conhecemos, levem-no para a prisão".
"Se eu resolvo não jogar, meus amigos vão embora, abandonando-me. Mas logo que os dados transmitem o seu chamado, vou ao seu encontro como se fora um amante".
Trêmulo, o jogador entra na sala, perguntando a si mesmo: "Vou ganhar?" Os dados anulam a sua esperança, dando ao adversário os lances decisivos.
Em verdade, os dados têm pontas, ferem, derrubam, queimam, consomem. Presentes de príncipe, untados de mel para o jogador, frenéticos, eles recaem sobre o seu vencedor.
Os seus cento e cinqüenta companheiros, como o deus Savitri, jogam com a verdade. Não receiam a raiva do poderoso. O próprio rei respeita-os.
Rolam para baixo, saltam para cima. Não possuem mãos e no entanto dominam aqueles que as têm.
Brasas divinas lançadas à mesa, por mais frios que estejam, os dados incendeiam o teu coração.
Desprezada, a mulher do jogador atormenta-se e a mãe sofre pelo filho, que ela não sabe onde está. Endividado, trêmulo, buscando boa sorte, à noite, ele vai para a casa de outra pessoa.
Ele sente remorsos, o jogador, quando vê a esposa de um conhecido em casa bem arrumada. Se, pela manhã, ele atrelou os cavalos pretos, à tarde o pobre diabo vai cair no pátio.
Ao general do vosso grande exército, àquele que foi o primeiro rei do vosso clã, eu mostro os dedos abertos, eu juro que não escondi dinheiro atrás de mim.
Não jogues dados, cultiva o teu campo, alegra-te e aprecia o que possuis. Trata dos teus bois, jogador, cuida da tua mulher! Assim fala o nobre Savitri.
Faz um acordo conosco, se quiseres. Tem piedade, não atires sobre nós, a tua cruel, audaciosa imprecação! Acalme-se a tua raiva, a tua agressividade. Seja outra a vítima dos dados negros.

[18 - Na Índia antiga. os dados eram feitos das nozes ressequidas da árvore vibhidaka].

X - 71
Hino à palavra
Ó Briaspati, quando se pronunciou no princípio a primeira palavra, quando se deram nomes às coisas, revelou-se amorosamente, o que nelas havia de melhor e de puro, o que nelas estava oculto. .
Quando os sábios, em seu pensamento, criaram a palavra, como se estivessem peneirando grãos, os amigos souberam o que é amizade. A beleza apareceu na linguagem.
Pelo sacrifício, buscaram os rastos da Palavra. Encontraram-na. Ela entrara na casa dos poetas. Dividiram-na em muitos modos. Os sete sábios deram-lhe a eloqüência.
Mais de um vidente não viu a Palavra. Mais de um que tem audição não a entende. Ela abre o seu corpo a quem a compreende, assim como a esposa amante, adornada de jóias, despe-se ante o marido.
Quem não a entende, dizem que é vaidoso, não aceita amizade nem gosta de discussão. Anda com sua ilusão estéril e a palavra que ouviu não dá nem flor, nem fruto.
Não participa mais da Palavra quem se afastou do amigo fiel. O que ele ouve, inutilmente ouve. Ignora o caminho do dever.
Todos os amigos têm olhos e ouvidos, mas são diferentes na energia do seu pensamento. São como os lagos; alguns chegam à boca, outros às axilas, um contém água somente para as abluções.
Quando unidos pela amizade, os sacerdotes sacrificam, cultivando em sua alma o vigor do pensamento, alguns se atrasam em sabedoria, outros vão muito além, à maneira de um brâmane afamado.
Receberam a palavra por engano aqueles que não caminham, nem para a direita, nem para a esquerda, não são brâmanes, nem servos. Incapazes de criarem, tecem um pano com farrapos.
Quando um amigo regressa, glorioso, vencedor em um torneio oratório, alegram-se todos os seus amigos. Preparado, disposto à prova, ele liDerta-os do pecado, ganha alimento para os amigos.
Um aplica-se à escrupulosa composição dos versos sagrados, outro canta a melodia das estâncias. Um, o brâmane, ensina a ciência que ele conhece; outro cuida das formas do sacrifício.(19)

[19- No último versículo, o autor do hino refere-se ao Rig Veda - versos sagrados - e ao Sama Veda - melodia das estâncias. O brâmane que ensina a ciência é o que preside a cerimônia do sacrifício. O outro, que cuida das formas do sacrifício, é o hotri. Segundo os hindus, a Palavra (com P) é um dos modos da ação da divindade criadora do Universo solar - Isvara -, ação criadora no plano do espírito e cuja forma sensível é a vocabular. A Retórica e a Poética dos hindus se apóiam nessa concepção mítica e mística da linguagem, havendo assim analogia entre a noção de Logos dos neo-platônicos e a dos pandites na Índia. A Palavra é sabedoria de que nem todos são dotados, somente acessível mediante a disciplina religiosa].

X - 117
Exortação à generosidade e à caridade
A fome não é o único suplício instituído pelos deuses. Os mortos também aparecem aos que vivem na fartura. Não diminui a riqueza de quem faz donativos. O avarento não encontra ninguém que o lamente.
Quem é insensível em face do miserável faminto,
do doente, não encontra ninguém que o lamente. Generoso é quem dá ao mendigo vagabundo, magro, faminto. Quem o socorre, chamando-o na estrada, adquire um amigo para os dias futuros.
Quem não dá uma parte do seu alimento ao amigo, ao companheiro de viagem, não é amigo. O amigo ou o companheiro afaste-se dele e vá à procura de outro, generoso, ainda quando seja estrangeiro.
O poderoso deve dar ao oprimido. Pense na estrada que tem a percorrer. A riqueza gira como as rodas de. um carro, ora vai para um lado, ora vai para o outro, no caminho.
O insensato poupa o alimento em vão. Em verdade, eu vos digo, o alimento é a sua perdição. Ele não arranja nem um camarada, nem um amigo. Comendo sozinho, ele está só com o seu erro.
No trabalho, a charrúa acalma a fome. Andando, termina-se a viagem. O sacerdote que fala, leva vantagem sobre o sacerdote que não fala. O amigo que faz donativos vale mais do que aquele que não os faz.

XI - 4
Hino ao Prana
Louvemos o Prana (20) que domina tudo, senhor de todas as coisas, no qual se apóiam todas as coisas.
Louvemos o Prana, quando ele está mugindo, quando está trovejando, quando está relampejando, quando está chovendo.
Quando Prana em seu trovão está mugindo sobre as plantas, estas são fecundadas, recebem os germes, multiplicam-se.
Quando em devido tempo o Prana está mugindo sobre as plantas, há alegria em tudo, regozijam-se todas as coisas na Terra.
Quando Prana inundou com a chuva a terra toda, então os animais se alegram e dizem: vai haver abundância para nós.
As plantas molhadas pela chuva falam assim ao Prana: tu nos prolongaste a vida, tu nos tornaste a todas perfumadas.
O Prana acolhe em seus braços as criaturas como o pai ao filho preferido.
Não é o Prana o senhor de tudo que respira, de tudo que não respira?
O Prana é a morte, o Prana é a doença, o passado, o futuro.
Não lhe é permitido, Ele o Cisne, mostrar um único pé fora das águas. Se o fizesse, não haveria mais nem o dia de hoje, nem o de amanhã, nem trevas, nem luz, e a aurora não surgiria mais.
Não te afastes de mim, Ó Prana, não sejas outra coisa diferente de mim. Para viver eu ligo-te a mim para viver, como o embrião das águas.

[(20) A palavra prana designa um princípio cósmico, ao qual os hindus atribuem funções vitais genéticas e permanentes no que diz respeito aos organismos vivos. É identificado ao ar e deificado. O Cisne, mencionado neste hino, é a figuração da sabedoria divina. Denomina-se Hansa ou Hamsa, em sânscrito, e as duas sílabas representam a inspiração e a expiração na prática do Ioga].

XVIII - 2
Hino para ser entoado em um funeral
Terra, sê leve, sem espinhos, repousante. Vasta, oferece-lhe o teu abrigo.
Deponham-te, não em lugar estreito, mas em terreno largo. Tuas oblações, enquanto viveste, agora sejam mel para ti.
Chamo o teu pensamento com o meu pensamento. Vai alegre para a tua morada e reune-te aos nossos antepassados, a lama.
Que os ventos te sejam favoráveis e benéficos!
Da tua alma, do teu alento, dos teus membros, nada fique por aqui.
Não sejas oprimido nem pela terra divina e poderosa, nem pela árvore. Vai para o teu lugar, entre os antepassados, sê feliz entre os súditos de lama.
O que se perdeu dos teus membros, ao longe, tua respiração, tua expiração, levadas pelo vento, que os nossos antepassados te restituam aos poucos.
[Durante a cremação]
Os vivos expulsaram-no de casa. Levem-no para longe da aldeia.
Enquanto enterram os ossos, depois da cremação
Ainda vês, depois não verás mais, o sol que está no céu. Ó Terra, como a mãe trata do filho, recobre-o com teu manto.
Agora ainda, não mais depois, mesmo em tua velhice, ó Terra, cobre-o com a tua vestimenta, como esposa com seu marido.
[Ao apagar da fogueira crematória]
Que te seja benéfica a neblina, benfeitora a geada. Fria e fresca de frieza, fresca e feita de frescura, rã nas águas, sê benéfica. Extingue esta chama!

XII - 1
Hino à Terra
Alta realidade, (21) lei rigorosa, (22) sacramento,(23) fervor, prece, sacrifício, sustentam a Terra. Senhora do que foi, do que será dê-nos a Terra um abrigo distante!
Estejamos livres entre os homens! Há encostas na Terra, ladeiras, largas planícies e vegetais de muitas virtudes. Que a Terra se estenda e cresça para nós!
Ela possui águas: o oceano e os rios. Nela, os deuses alcançaram a imortalidade. Nela se anima tudo quanto respira e sente. Conceda-nos a Terra as primícias das vindimas!
Pertencem-lhe os quatro horizontes, nela nasceram o alimento e o trabalho. Ela sustenta de muitas maneiras tudo quanto respira e vibra. Dê-nos a Terra bois e abundância!
Sobre ela, nos primeiros tempos, os homens dispersaram-se; sobre ela, os deuses dominaram os demônios. Abrigo dos cavalos, dos bois, dos pássaros, dê-nos a Terra boa sorte e prestígio!
Possuidora de tudo, tesouro de bens, muralha, couraça de ouro, ela apóia tudo quanto se move, sustenta o Fogo universal.(24) lndra é o seu touro. Permita-nos a Terra descanso na riqueza!
Noite e dia, sem cansaço, sempre despertos, amparam-na os deuses, a Terra vasta. Deixe que ela nos colha o suco precioso, e derrame sobre nós o seu esplendor!
No princípio, era uma onda no oceano e os sábios buscavam-na com suas magias. No mais alto dos céus, está o coração imortal, o coração da Terra, envolto na Verdade. Dê-nos a Terra brilho e força em um império soberano!
As águas correntes passam sobre ela, sempre as mesmas, noite e dia, sem cansarem. Terra, de onde jorram mil torrentes, traz-nos o leite, abre sobre nós o teu esplendor!
Mediram-na os Asvins, percorreu-a Visnú com seus passos, lndra o esposo de Sassi, livrou-a de inimigos. Dê-nos a Terra o seu leite, assim como faz a mãe ao seu filho!
Acolham-nos os teus cimos, as tuas montanhas nevadas, a tua floresta, sê hospitaleira, ó Terra! Escura, negra, vermelha, com mil formas, a Terra vasta é no entanto imutável, sob a custódia de lndra. Ileso, invencível, invulnerável, nela eu fiz a minha morada.
Abriga-nos no eixo, no centro, em todos os vigores que emanam do teu corpo e neles purifica-nos! A Terra é mãe e eu sou filho da Terra! Parjania é meu pai! Dê- -nos ele tudo em abundância!
Terra onde levantam seus altares, onde celebram seus sacrifícios, os oficiantes de todos os ritos. Terra,
onde se erguem, altos e puros, os pilares do sacrifício, antes da oblação. Aumente o teu vigor e faças crescer o nosso!
Terra previdente, entrega-nos quem nos odiar, ata- car ou ameaçar com o seu pensamento ou sua arma mortal!
Nascem de ti e ao teu seio regressam os mortais! Sustentas os animais, quadrúpedes e bípedes e pertencem-te as cinco raças humanas, às quais se abre a luz imortal, sob os raios do sol nascente!
Que se deixem ordenhar todos esses seres. Dá-me, ó Terra, o mel da palavra!
Genitora universal, mãe das plantas, Terra imutável e vasta, que a Lei mantém pacífica e hospitaleira, possamos nós sempre andar sobre ela!
Imensurável retábulo, és a imensa! Imensos o teu tumulto, agitação e desassossego, imenso Indra que te protege sem cansaço! Terra, faz-nos resplandecentes como se estivéssemos sob um reflexo de luz dourada! Ninguém nos queira mal!
Quando está vestida de fogo, seus joelhos enegrecem. Terra, faz-me brilhante e afiado!
Sobre a terra, oferecem-se aos deuses sacrifícios e libações excelentes. Sobre a Terra, vivem, alimentam- -se e bebem os homens mortais. Terra, permite-me alcançar a velhice!
Derrama sobre mim o teu perfume, Terra, o perfume dos Gandarvas, dos Apsaras, o perfume das plantas e das águas. Dá-me o teu perfume e ninguém nos queira mal!
O teu perfume impregnou o Loto, o perfume que atraiu os Imortais às bodas da Filha do Sol. Dá-me o teu perfume, ninguém nos queira mal!
o teu perfume nas criaturas humanas, machos e fêmeas, sua essência e alegria; o teu perfume, nos cavalos, nos guerreiros, nas feras, nos elefantes, encanto da jovem, ó Terra, dá-me esse perfume e ninguém nos queira mal!
Seja pedra, húmus, rochedo ou pó, a terra está sempre firme e sólida. Sua couraça é de ouro. Eu venero a Terra.
Nela se apóiam as árvores, princesas da floresta, imóveis, sempre erectas. Invocamos a Terra nutriz, a Terra sólida.
Quando nos levantarmos ou nos sentarmos, quando iniciarmos nossa caminhada, seja o primeiro passo com o pé direito ou o esquerdo, não pisemos em falso, cambaleando, na Terra.
Falo à Terra purificadora, à Terra paciente que dá vigor à oração. Ela dá força aos alimentos, à manteiga sagrada, a floração.
Lave-se o nosso corpo nas águas puras e sobre os inimigos atiramos nossos excrementos. Terra, limpo-me em teu filtro.
Sejam-me hospitaleiros o Norte e o Sul, o Oriente e o Ocidente, quando eu estiver caminhando. Apoiando-me na Terra, esteja eu livre de quedas.
Não nos expulses da frente, nem de trás, nem de cima, nem de baixo. Acolhe-nos bem, Terra. Afasta para longe a arma da morte.
Se vejo, Terra, a tua superfície à luz do sol, não permitas que os meus olhos enfraqueçam, quando os anos vão passando.
Se, deitado, volto-me do lado direito ou do esquerdo; se, com meu dorso estendido, roçam-te as minhas costelas, não nos faça mal, Terra. Não és o leito de todas as coisas?
Logo cicatrizem as feridas que faço em ti, ó purificadora. Jamais eu fira nem teu coração nem qualquer parte mortal.
Deixa-nos, ó Terra, ordenhar o verão, as chuvas, o outono, o inverno, a geada, a primavera, as estações sucessivas, os teus dias e noites.
A purificadora, que estremece ante a serpente e abriga os fogos ocultos sob as águas, denunciando os demônios que insultam os deuses, escolheu lndra por esposo e não Vrita, a Terra entregou-se ao Touro (25) potente, ao Macho.
No sacrifício, pertencem-lhe os tambores e os carros, sobre ela levanta-se o pilar do ritual. Sobre ela os brâmanes entoam suas árias e estrofes, sobre ela reunem-se os oficiantes, para que lndra beba o soma.
Sobre ela, os sábios antigos, criadores de seres com os seus cânticos, trouxeram as vacas à existência, os sete demiurgos, pelo cerimonial, pela ascese, pelo sacrifício.
Mostre-nos ela a riqueza que desejamos e aos seus esforços associe-se Bhaga. lndra marche à nossa frente.
Terra, onde os mortais cantam, dançam combatem, ruidosos, onde se alteia o grito de guerra e ressoa o tambor. Terra, repele para longe os meus adversários, toma-me sem rival!
Ela possui os alimentos, o arroz, a cevada. As cinco raças humanas dependem da Terra, esposa de Parjania, ela também nutrida de chuva.
Senhora de cidadelas construídas pelos deuses, sobre a sua superfície os homens estão dispersos. Matriz de tudo, faça-a Prajapati (26) cada vez mais acolhedora.
Possuidora de bens e de tesouros escondidos. dê-me a Terra diamantes e ouro. Ela, distribuidora de tantas riquezas, possuidora de tantos bens, conceda-nos a Terra a sua complacência.
Sobre a Terra, em muitos lugares, habitam povos de idiomas diversos e leis que variam segundo as regiões. Para nós, abram-se no solo mil fontes de riquezas. Para nós, seja a Terra uma vaca robusta e não nos recuse o seu leite. A serpente, o escorpião, ávido ao picar, o animal que engole o inverno, oculto, imóvel em seu torpor, o verme inquieto, ao cair das chuvas, todo animal rastejante não rasteje sobre nós. Terra, concede-nos essa graça, sê favorável!
Os muitos caminhos que abriste aos homens, as estradas para os carros grandes e pequenos, a via por onde andam os bons e os maus, ao mesmo tempo, possamos percorrê-la sem inimigos e bandidos. Concede-nos a graça de obter o que nos for propício!
Sobre ela vivem o ajuizado e o insensato. A Terra suporta o covil do malvado e o abrigo do bom. A Terra vive em concórdia com o javali, e com o porco selvagem ao qual abre o seu corpo.
Leva para longe de nós as feras do deserto, os . animais da floresta, comedores de homens, tigres e leões andarilhos, lobos e chacais, a miséria, ogros e demônios, ó Terra. Rechaça-os para muito longe de nós.
Gandarvas, Apsaras, avarentos, famintos, vampiros, todos os demônios, afasta-os de nós, Terra.
Sobre ela voam os animais de asas, flamingos, águias, falcões, todos os pássaros. Sobre ela estremece
o vento, Matarisvan, que levanta a poeira e sacode os ramos das árvores. Quando sopra e cresce o vento, logo o fogo se acende.
Sobre a terra acendem-se o dia e a noite, concordam o vermelho e o negro. A chuva cobre e recobre a Terra, que ela distribui amável, enquanto estamos abrigados em nossas casas.
Quando outrora estendeste o teu corpo, a pedido dos deuses, exibindo o teu poder, tu sentiste o bem estar dentro de ti e então abriste os quatro horizontes.
Nos burgos e nos campos, nas reuniões, em todo o mundo, nos conselhos, entre a multidão, sejam elogiosas as nossas palavras a respeito de ti.
Como o cavalo sacode poeira, a Terra, quando nasceu, levantou os povos. Pioneira alegre, guardiã do mundo, ela sustenta as árvores e as plantas.
Pacífica, perfumada, hospitaleira, com o seio entumescido de leite, proteja-me Terra.
O deus de todas as obras, oferecendo-lhe libações, procurava-a enquanto ela ainda estava mergulhada na impureza dos mares. Taça de prazer, oculta em segredo, agora se manifestaram seus benefícios à humanidade.
És a semeadora dos seres. Vasta és, Aditi, aquela deusa que ordenha os desejos. Prajapati, Primogênito da Ordem, conceda-te aquilo de que careceres.
Seja fecundo o teu regaço, isento de males, de febres, ó Terra. Se despertarmos para uma longa existência, há de ser tu quem receberá nossas ofertas.
Terra, nossa mãe, concede-me a graça de uma boa moradia. Tu, que vives em harmonia com o Céu, concede-me, ó Sábia, a glória e a prosperidade!

[(21) "Alta realidade": a suprema divindade.
(22) "Lei rigorosa": o princípio segundo o qual se constituiu e permanece o Universo. Rita - Ordem universal.
(23) "Sacramento": a Terra é o efeito de um ato sagrado, sacramental.
(24) Fogo universal "Fohat" - energia latente no corpo humano. O homem sustenta-se da Terra, que assim mantém o "Fogo universal"; embora adormecido no chacra mais inferior do corpo etérico humano.
(25) "Touro"; um dos epítetos de Indra, por haver esse deus assumido a forma de um touro.
(26) "Primogênito da Ordem"; Prajapati, segundo a mitologia hindu, foi o primeiro deus a surgir do Universo já formado e organizado].

XIX - 26
Para a confecção de um talismã de ouro, que sendo usado possibilita longa vida
Nascido do fogo, este ouro foi concedido aos mortais como objeto imortal. Merece-o quem sabe disto. Quem usá-Io morrerá velho.
O ouro de belo colorido, desde os primeiros tempos procurado pelos homens e por seus filhos, o ouro brilhante derrame sobre ti o seu fulgor. Gozará de longa vida quem usá-Io.
Eu te entrego isto para a tua longa vida, para o brilho, a força e o vigor. Entre os outros homens, resplandeças com o brilho do ouro.
Conhecido do rei Varuna, do deus Briaspati, de Indra, matador de Vrita, obtenhas longa vida e prestígio por este talismã.

XIX - 47
Hino à Noite
Ó noite, por ordem do Pai, cobriste o espaço terrestre. Tu te elevaste até às moradas celestes. Vêm rolando as trevas cintilantes.
Tudo repousa no seio da treva, da qual não se vê a outra margem.
Possamos chegar ao outro lado, ó vasta noite escura, atingir a tua outra margem.
Os teus espiões,(27) vigias dos homens, ó Noite, são noventa, oitenta e oito, setenta e sete.
E setenta, ó rica, cinqüenta e cinco, ó favorável, e quarenta e quatro e trinta e três, ó nutritiva.
Vinte e dois eles são, ó Noite, pelos menos são onze. Filha do Céu, abriga-nos hoje com esses guardas.
Nenhum demônio, nenhum feiticeiro, tenha poder sobre nós. Nenhum ladrão venha apossar-se das nossas vacas, nenhum lobo venha devorar as nossas ovelhas.
Ó Bela, nenhum bandido venha tomar nossos cavalos, nem feiticeiras venham seduzir nossos homens. O ladrão, o bandido, afastem-se para longe daqui.
Para longe a corda com dentes, (28) para longe o malfeitor. Ó Noite, torna cega e sem cabeça a serpente, que morra asfixiada no veneno do seu hálito.
Quebra os maxilares do lobo, atira o ladrão no suplício. Nós moramos em ti, ó Noite, queremos dormir. Sê vigilante!
Estende a tua proteção às nossas vacas, aos nossos cavalos, aos nossos homens!

[(27) "Espiões da Noite": as estrelas.
(28) "Corda com dentes": a serpente].